Cada ano a mais é um ano a menos


        Essa semana eu perdi o último dos meus avós... O vô Dalvo. Pai do meu pai. Quando eu era criança, lembro de passar muito com ele, com a vó, e com o Cleiton. Íamos pescar. Íamos à praia. Pras festanças de domingo na parentada. Na tia Daura, na Tia Dinah, ou lá no Monte Bonito (ou Morro Redondo? Eu nunca sabia direito). Eu lembro de uma noite que tinha muita gente lá no vô (a casa dele vivia cheia. Ele gostava de reunir a família. E iam todos. A casa e o longo corredor que unia o portão da entrada e o lugar onde hoje é a churrasqueira, eram pequenos pra tanta gente). Nessa noite, saí pra brincar na rua, junto a outras crianças que estavam lá de visita, e mais umas da vizinhança (aquela rua era cheia delas), tinha acabado de parar de chover. Eu fui correr nas pedras irregulares da Clóvis Beviláqua descalça (se a minha mãe visse isso....) e pisei numa pedra pontuda. Cortei o pé. A pedra molhada me fazia pensar que meu pé não parava de sangrar. Eu tava com um pouco de medo, mas tava muito orgulhosa e me sentia responsável por mim mesma. O vô sempre fazia a gente se sentir responsável por nós mesmos... Ele não nos tratava como crianças bobas. Só éramos pessoas pequenas. Ele não mimava. Era o vô Dalvo. O estofador.
        A oficina dele cheirava a couro. Era muito curioso entrar lá. Aquelas ferramentas, máquinas, o estoque todo. Tudo sempre era novidade pra mim. O vô sempre pacientemente me explicava cada coisa. Quando a oficina foi pra Avenida Brasil, pouco pisei os pés lá. Pouco fui lá no vô nos últimos anos, inclusive.
        Na minha adolescência eu convivi muito com ele. E ele não me dava mole. Um dia eu pedi dinheiro pra ir comprar uma blusa no centro, o vô me deu 10 reais. Era bastante. Eu comprei uma blusa de 3,99 num balaio, e fui me encontrar com um "amigo" na praça dos macacos (hoje eles não existem mais. Nem os macacos da praça, nem o amigo. Tem amigos que morrem pra gente, mesmo vivos. Enquanto tem gente que morre e tá sempre viva na gente). Ele é uma dessas decepções que a gente tem ao longo da vida. Comprei um sorvete pra mim e um pra ele. E ainda levei o troco pro vô. Quando voltei, pisando em ovos e tentando disfarçar pelo enorme tempo que eu tinha ficado na rua, o vô já sabia onde eu tinha ido, com quem eu tava e o que eu já tinha comido. Ele só não sabia que eu tinha realmente comprado uma blusa. Mas nem mostrei... Meu álibi de 3,99 não funcionaria. Eu fiquei com muita vergonha de ter mentido pra ele. Mas só porque ele descobriu. Se não, eu teria passado ilesa e faceira. Sem vergonha nenhuma...
        Outra vez, na minha adolescência, lá em Bagé (ousei na rebeldia ao morar lá), o vô me acompanhou na delegacia de polícia porque eu tive que depor por encher a cara de uma menina na porrada. Eu sempre odiei briga. Não vem ao caso eu dizer o porquê aconteceu aquilo. Mas eu digo que foi necessário. Disfarço e mudo de assunto.
           Fui pega de moto sem carteira de habilitação (eu tinha 15 anos). O pai estava na Bahia. A
Lucia
teve que ir atrás de mim à noite lá. Coitada. Se o policial não tivesse me pego naquela blitz, talvez eu não tivesse aqui pra narrar (1995 , capacete pra quê?- C100 DREAM - os 100 km/h na Santa Tecla fazia voar nossos cabelos,
Marta Vasques
....). E então o dia de eu ir depor na Delegacia de Trânsito, o vô tava lá. Eu não menti. O pai levou a chave da moto quando viajou, porque ele sabia que eu ia pegar a moto pra andar enquanto ele não estivesse. Ele só não lembrava que eu tinha uma cópia. E o vô me alertou que o pai podia perder a carteira por culpa minha, se eu não dissesse a verdade. E eu insisti em dizer isso. E foi tudo bem. Quando o pai chegou da Bahia, minha moto já tava vendida. E ele me comprou uma bicicleta vermelha com os aros cheios de canudos verde-limão. Lembro de andar poucas vezes, o cabelo mal esvoaçava, mesmo nas longas ladeiras geladas da azeda Rainha da Fronteira. 
        O vô tava lá comigo em muitas outras vezes.
        E eu não pude estar lá com ele desta vez.
        Em meio a tanta coisa que aconteceu nessa semana, eu nem tinha parado pra lembrar das coisas que eu vivi com ele. Eu amava muito o meu avô. Eu amava todos eles (eu, privilegiada , tinha 5: 3 vós e 2 vôs). 
E me sinto triste por ter estado longe dele nos últimos anos. Mas tenho boas lembranças. Essa foto tem dois anos. Foi uma das últimas vezes que eu tive lá. Com a Nicole e o Felipe. E o vô tava assim, como sempre, feliz e com vontade de viver.

Me lembro de uma frase dele, que eu sempre lembro quando faço aniversário, e no dele também. Soa um pouco negativa, eu sei, mas é real . Ele me disse que não gostava de que cantassem parabéns pra ele no seu aniversário, porque era um ano a menos que ele tinha. Cada dia é um ano a mais e um ano a menos. Depende do ponto de vista. Mas as contas do vô bateram dessa vez. E todos os dias 30 de abril, eu vou me lembrar disso.
Te amo vô. Estejas em paz. 🖤


 

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